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Disrupção no Setor de Software: o caso Anthropic e a queda da Totvs

  • Foto do escritor: Mirella Correia
    Mirella Correia
  • há 2 horas
  • 7 min de leitura

Em fevereiro de 2026, o setor de tecnologia voltou a provar que estamos no meio de uma transformação profunda — e que o avanço da inteligência artificial está reescrevendo regras que pareciam estáveis há décadas. O lançamento de uma nova ferramenta da Anthropic, focada na automação de tarefas jurídicas, comerciais e de análise de dados, provocou uma reação imediata no mercado financeiro global. No Brasil, as ações da Totvs sofreram uma queda acentuada em poucos pregões, sinalizando que o mercado começou a precificar algo maior do que a simples chegada de um novo concorrente.


O episódio vai além de uma oscilação de bolsa. Ele aponta para uma mudança na “camada de aplicação” do software corporativo. Onde antes ERPs e CRMs dominavam por meio de interfaces complexas, projetos longos e contratos extensos, agora surgem agentes de IA capazes de executar as mesmas tarefas de forma autônoma, integrada e com muito menos fricção operacional.


Para empresas B2B, profissionais de marketing e times comerciais, o recado é claro: eficiência operacional deixou de ser diferencial sustentado por software legado. O novo jogo passa a ser a capacidade de orquestrar inteligência, reduzir esforço humano e acelerar o retorno sobre investimento.


Ao mesmo tempo, o comprador corporativo está mais maduro, mais consciente de custos e muito menos tolerante à complexidade. Promessas abstratas de valor já não convencem. O que pesa é previsibilidade, simplicidade de uso e impacto real no dia a dia da operação.


Neste blog, vamos explorar o que o caso Anthropic e a reação do mercado à Totvs revelam sobre o futuro do software corporativo, como a IA está mudando o que significa “valor” em tecnologia, o que isso altera no comportamento do comprador B2B e quais são as implicações estratégicas para empresas que vendem software, soluções e serviços em um mercado cada vez mais orientado por automação.



  1. Quando a IA muda o que significa “valor” em software corporativo

    Durante muitos anos, o valor de um software corporativo foi medido pela quantidade de funcionalidades, pela robustez da plataforma e pelo quanto ele conseguia centralizar processos em um único sistema. ERPs e CRMs cresceram exatamente em cima dessa lógica: quanto mais completo, mais estratégico parecia ser.


    A chegada das IAs especializadas começa a inverter esse raciocínio.


    Ferramentas como as lançadas pela Anthropic não competem oferecendo “mais telas”, “mais módulos” ou “mais configurações”. Elas competem prometendo algo muito mais direto: menos trabalho humano para chegar ao mesmo resultado. Em vez de pedir que o usuário aprenda a operar sistemas complexos, a IA passa a executar tarefas sozinha — analisando contratos, organizando dados, gerando relatórios, estruturando respostas e conectando informações sem que o usuário precise atravessar dezenas de etapas.


    Isso muda completamente a percepção de valor no B2B.


    O cliente corporativo, que antes aceitava complexidade em troca de controle, agora começa a questionar: por que preciso de um sistema pesado para fazer algo que um agente inteligente resolve em minutos? Por que investir meses em implantação se posso ter ganho operacional imediato? Por que treinar equipes inteiras em interfaces complexas se posso reduzir o esforço com automação?


    Na prática, o valor deixa de estar na ferramenta em si e passa a estar no resultado entregue com o menor atrito possível.


    Esse é o ponto central da disrupção: não é que softwares tradicionais deixaram de funcionar. É que o mercado passa a enxergar que funcionar não é mais suficiente. O novo padrão é funcionar com simplicidade, velocidade e impacto direto na operação.


    Em mercados maduros, quem simplifica vence quem complica — mesmo que a solução antiga seja mais completa.


    Para marketing e comercial de empresas de software, isso traz um alerta importante: não basta mais vender “plataforma”, “ecossistema” ou “solução completa”. O discurso precisa migrar para eficiência real, tempo poupado, fricção eliminada e retorno visível.


    A IA não está apenas criando novos produtos. Ela está redefinindo o que o cliente considera valioso.


  2. A nova expectativa do comprador B2B: menos complexidade, mais resultado


    Se a IA está mudando o que significa valor em software, ela também está mudando o que o comprador B2B espera de qualquer solução. Em 2026, o cliente corporativo é mais pragmático, mais pressionado por resultado e muito menos tolerante à complexidade operacional.


    Durante anos, o mercado se acostumou a aceitar projetos longos de implantação, curvas de aprendizado extensas e processos cheios de etapas internas para extrair valor de sistemas corporativos. Hoje, essa lógica começa a perder sentido.


    Ferramentas baseadas em agentes de IA elevam o padrão de expectativa. Quando o comprador vê tarefas sendo executadas de forma automática, integrada e com pouco esforço humano, ele passa a questionar tudo o que exige tempo demais, configuração demais ou dependência demais de operação manual.


    Na prática, o critério de decisão muda. Não é mais apenas quantas funcionalidades o software tem ou quão completo é o ecossistema. Passa a ser: quanto tempo eu levo para ver resultado? Quanto esforço operacional isso exige da minha equipe? Quanto retrabalho isso elimina? Quão simples isso é de usar no dia a dia?


    Complexidade deixa de ser sinal de sofisticação e passa a ser sinal de atrito.


    Isso impacta diretamente o marketing e o comercial B2B. Promessas genéricas de “transformação digital” perdem força se não vierem acompanhadas de exemplos claros, provas de uso real e demonstrações de simplicidade. O comprador quer previsibilidade, quer entender o antes e o depois e quer saber quanto esforço interno será necessário para chegar lá.


    Outro ponto importante é que essa mudança reduz a paciência com soluções que “prometem muito e entregam depois”. O valor precisa ser percebido cedo. Cada vez mais cedo.


    Para empresas de software, o recado é direto: não basta ser poderoso, é preciso ser utilizável. E, para quem compra, o critério deixou de ser “o sistema mais completo” e passou a ser “o sistema que resolve com menos fricção”.

  3. A pressão sobre o software tradicional: quando o modelo legado começa a perder fôlego

    Toda grande mudança tecnológica cria um período de convivência entre o novo e o antigo. Mas chega um momento em que essa convivência deixa de ser estável e passa a ser tensa. É isso que começa a acontecer com o software corporativo tradicional diante da ascensão das IAs especializadas.


    Empresas que cresceram sobre ERPs, CRMs e plataformas robustas sempre venderam a ideia de controle e centralização. Isso fez sentido por muito tempo. O problema é que, com a chegada de agentes inteligentes capazes de executar tarefas diretamente, parte dessa complexidade passa a parecer desnecessária.


    O mercado começa a fazer perguntas incômodas: se um agente de IA pode analisar contratos, gerar relatórios, organizar dados e apoiar decisões sem passar por dezenas de telas, por que eu preciso de um sistema tão pesado para isso? Se posso reduzir retrabalho e dependência operacional com automação inteligente, por que continuar investindo em estruturas que exigem longos projetos de implantação e treinamento?


    Essa mudança não acontece de um dia para o outro, mas ela é implacável. E o movimento das ações da Totvs após o anúncio da Anthropic é um sinal claro de como o mercado financeiro já precifica esse risco. Não se trata apenas de concorrência pontual. Trata-se de erosão de modelo de negócio.


    Quando o valor percebido migra da plataforma para a execução direta de tarefas, o centro da disputa muda. O cliente passa a comparar menos “quem tem mais recursos” e mais “quem resolve mais rápido, com menos esforço e menos custo indireto”.


    Toda empresa de software agora compete não só com outros softwares, mas com a ideia de que o trabalho pode simplesmente ser automatizado.


    Para marketing e vendas dessas empresas, isso muda tudo. O discurso deixa de poder se apoiar apenas em robustez ou liderança de mercado. O cliente quer saber como aquela solução reduz esforço real, elimina tarefas e acelera resultado — e quer ver isso de forma concreta.


    Quem não conseguir fazer essa transição corre o risco de não perder clientes de uma vez, mas perder relevância aos poucos.



  4. O que muda na estratégia: vender software deixa de ser vender sistema e passa a ser vender resultado


Quando a IA começa a executar tarefas diretamente e o mercado passa a rejeitar complexidade, a estratégia das empresas de tecnologia precisa mudar na raiz. Não é apenas uma questão de produto. É uma questão de posicionamento, proposta de valor e modelo de crescimento.


Durante muito tempo, vender software significou vender sistema: módulos, funcionalidades, integrações, personalizações e projetos de implantação. Em 2026, essa lógica perde força. O cliente não quer mais um sistema para operar. Ele quer menos trabalho para chegar ao resultado.


Isso muda completamente a forma como marketing e vendas precisam se comunicar. O discurso técnico perde espaço para o discurso de impacto. Em vez de mostrar o que a ferramenta faz, passa a ser essencial mostrar o que deixa de ser feito: quanto tempo é economizado, quanto retrabalho é eliminado e quão mais simples fica o dia a dia da equipe.


Na prática, a venda deixa de ser sobre adoção de tecnologia e passa a ser sobre redução de esforço. O cliente compra previsibilidade, ganho de eficiência e alívio operacional.


Isso também exige integração real entre produto, marketing e comercial. Não dá mais para o marketing prometer simplicidade, o produto entregar complexidade e o comercial tentar explicar isso no meio da negociação. O que está sendo vendido precisa ser coerente do discurso à experiência real de uso.


Em um mercado onde a IA executa, quem vende sistema perde espaço para quem vende resultado.


Empresas que entenderem esse movimento cedo conseguem reposicionar suas soluções, simplificar suas ofertas e alinhar toda a operação em torno de entrega de valor prático. As que resistirem tendem a ficar presas a um modelo que o mercado, aos poucos, deixa de valorizar.



Conclusão


O caso da Anthropic e a reação do mercado à queda da Totvs não são apenas episódios pontuais do setor de tecnologia. Eles são sinais claros de uma mudança mais profunda na forma como valor é criado, percebido e comprado no mercado B2B.


A inteligência artificial deixa de ser complemento e passa a ocupar a camada central da operação. O software tradicional, antes valorizado pela complexidade, passa a ser questionado pelo esforço necessário para chegar ao resultado. Em um cenário onde agentes inteligentes executam tarefas diretamente, complexidade vira atrito — e atrito vira motivo de troca.


Essa transformação não é apenas tecnológica. Ela é estratégica, comercial e cultural. Muda o que se vende, como se vende e o que o cliente espera receber. Vender software deixa de ser vender sistema. Passa a ser vender simplicidade, velocidade e impacto prático no dia a dia.


Em um mercado onde a IA executa, vence quem elimina esforço — não quem adiciona camadas.


A disrupção não está apenas criando novos vencedores. Está redefinindo o que significa ser relevante. E, como todo movimento desse tipo, ela não espera. Quem entende cedo, se reposiciona. Quem demora, corre atrás.





 
 
 

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